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Resignação

J√° paramos alguma vez para pensar sobre o significado de ‚Äúresigna√ß√£o‚ÄĚ?... Ser√° que sabemos o seu real significado ou somente conhecemos a ‚Äúnossa interpreta√ß√£o‚ÄĚ de seu significado?...

 

Resignação é um assunto instigador, sobre o qual há muito o que se comentar, discutir, escrever... Não é nossa pretensão aqui neste texto elaborar alguma teoria nova sobre o assunto, mas somente refletirmos juntos sobre alguns pontos. Primeiramente, vamos relembrar o significado da palavra em nossa língua portuguesa e depois abordaremos o que a Doutrina Espírita nos elucida a respeito da resignação espírita ou cristã.

No Dicion√°rio Aur√©lio, encontramos o seguinte significado: ‚Äúsubmiss√£o paciente aos sofrimentos da vida‚ÄĚ. Mas ser√° que resigna√ß√£o √© isto mesmo: submetermo-nos pacientemente aos sofrimentos da vida? Que interpreta√ß√£o podemos dar a estas palavras ‚Äúsubmiss√£o paciente‚ÄĚ? Acomoda√ß√£o? Conformismo?! Aceitarmos tudo como sendo ‚Äúa vontade dos c√©us‚ÄĚ e n√£o nos esfor√ßarmos para mudar situa√ß√Ķes dif√≠ceis em nossas vidas, somente esperando ‚Äúpacientemente‚ÄĚ que a situa√ß√£o melhore?! Se tivermos ‚Äúalguma doen√ßa‚ÄĚ, devemos somente ‚Äúaceit√°-la‚ÄĚ e n√£o lutar para restabelecer nossa sa√ļde?! Estes s√£o apenas alguns exemplos para nossas reflex√Ķes quanto √† ‚Äúnossa interpreta√ß√£o‚ÄĚ de resigna√ß√£o. Sugiro que, antes de continuar a leitura, medite um pouco sobre isto...

A Doutrina Esp√≠rita nos leva a entender que resigna√ß√£o n√£o √© aceitar as situa√ß√Ķes por comodismo, ignor√Ęncia, medo ou simplesmente por ser ‚Äúa vontade dos c√©us‚ÄĚ, mas sim por compreender que as situa√ß√Ķes pelas quais passamos s√£o necess√°rias para nosso desenvolvimento intelectual, moral e espiritual (provas), podendo tamb√©m ser decorrentes de nossas atitudes desta ou de outras vidas (expia√ß√Ķes), cabendo-nos super√°-las, com paci√™ncia, por√©m atuando ativa e conscientemente naquilo que nos cabe fazer. Sem revolta ou lamenta√ß√Ķes, por saber que s√£o resultados de nossa responsabilidade quanto ao uso do nosso livre-arb√≠trio e da atua√ß√£o dos princ√≠pios da lei de causa e efeito.

No livro ‚ÄúC√©u e Inferno‚ÄĚ, h√° a cita√ß√£o de que ‚Äúa falta de resigna√ß√£o esteriliza o sofrimento‚ÄĚ[1] e Emmanuel, no livro ‚Äú50 Anos Depois‚ÄĚ, nos lembra de que ‚Äútodas as dores t√™m uma finalidade gloriosa na reden√ß√£o do teu Esp√≠rito‚ÄĚ.[2]

Em ‚ÄúO Livro dos Esp√≠ritos‚ÄĚ, encontramos a afirmativa de que nenhum benef√≠cio obteremos de nossos males se n√£o os suportarmos com resigna√ß√£o, assemelhando-nos ao doente que rejeita a beberagem amarga que o h√° de curar. Nos alerta que devemos fazer a nossa parte no ‚Äúajuda-te a ti mesmo que o c√©u te ajudar√°‚ÄĚ. Lembra-nos tamb√©m que muitas vezes passamos por provas que sab√≠amos de antem√£o (desde o plano espiritual) por que √≠amos passar, decorrentes do tipo de vida escolhida, e que o m√©rito est√° em nos submetermos √† vontade de Deus. [3]

No ‚ÄúEvangelho Segundo o Espiritismo‚ÄĚ, encontramos ensinamentos que ampliam nossa vis√£o al√©m da vida terrena, esclarecem sobre as causas atuais e anteriores de nossas afli√ß√Ķes e que nos advertem que podemos suavizar ou aumentar o amargor de nossas provas, conforme o modo como encaramos a vida terrena. Nos trazem tamb√©m a ‚Äúterapia da esperan√ßa‚ÄĚ, com a certeza de um futuro melhor, que nos sustenta, anima e nos leva a agradecer ao C√©u as dores que nos fazem avan√ßar. Isto tamb√©m faz com que reduzamos a import√Ęncia das coisas deste mundo, por√©m sem desprez√°-las, compelindo-nos √† modera√ß√£o de nossos desejos, a contentarmo-nos com nossa posi√ß√£o, sem invejar a dos outros, e a atenuar a impress√£o dos reveses e das decep√ß√Ķes que experimentamos. Assim, teremos calma e resigna√ß√£o, que s√£o muito √ļteis √† nossa sa√ļde corporal, mental e espiritual.4

Jesus proferiu: ‚ÄúBem-aventurados os aflitos, pois que ser√£o consolados‚ÄĚ, ensinando-nos assim que os que sofrem ser√£o compensados e que a resigna√ß√£o, que nos leva a bendizer do sofrimento, √© prel√ļdio da cura; que as dores deste mundo s√£o o pagamento de d√≠vidas que as nossas faltas passadas nos fizeram contrair, e que suportadas pacientemente na Terra nos poupam s√©culos de sofrimentos na vida futura. A doutrina de Jesus ensina, em todos os seus pontos, a obedi√™ncia e a resigna√ß√£o, duas virtudes companheiras da do√ßura e muito ativas, se bem que n√≥s, erradamente, podemos confundi-las com a nega√ß√£o do sentimento e da vontade. A obedi√™ncia √© o consentimento da raz√£o; a resigna√ß√£o √© o consentimento do cora√ß√£o. [4]

Os ensinamentos de Jesus, √† luz do Espiritismo, n√£o nos isentam das emo√ß√Ķes, das l√°grimas ??" seria contra a Natureza. Ensinam, contudo, a n√£o murmurar, a n√£o ficar inerte sob o peso da dor; afastam pensamentos de revolta e desespero; oferecem ponto de apoio, donde a alma pode consolar-se das coisas presentes com perspectivas das futuras. Mostram, acima de tudo, que h√° no Universo uma for√ßa, um poder, uma sabedoria incompar√°veis guiando caminhos, ora claros, ora misteriosos, mas constantemente justos e apropriados a cada necessidade. Nesse aceitar, por haver compreendido, pelo esclarecimento da raz√£o e do cora√ß√£o acontece a resigna√ß√£o esp√≠rita.[5]

Assim Jesus nos ensinou na ora√ß√£o do Pai Nosso, ‚ÄúFa√ßa-se a Tua vontade, assim na Terra como no c√©u‚ÄĚ; rogou no Monte das Oliveiras, ‚ÄúPai, se quiseres, afasta de Mim este c√°lice, n√£o se fa√ßa, contudo, a minha vontade mas a Tua‚ÄĚ (Lucas 22); exemplificou durante toda sua passagem pela Terra e vivenciou em sua plenitude entregando-se √† crucifica√ß√£o no G√≥lgota...

Muita paz, amor e luz em suas vidas.

Paulo S. Catanoze - setembro/2010

 


[1] 2a Parte -¬†Cap. VIII -¬†Expia√ß√Ķes Terrestres

[2] Pref√°cio do livro ‚Äú50 Anos Depois‚ÄĚ

[3] ‚ÄúLivro dos Esp√≠ritos‚ÄĚ quest√Ķes 486, 532, 663, 708, 740, 862, 943, 953 e Conclus√£o Item VII

[4] ESE Cap. V - ‚ÄúCausas Atuais das Afli√ß√Ķes‚ÄĚ, ‚ÄúCausas Anteriores das Afli√ß√Ķes‚ÄĚ, ‚ÄúMotivos de Resigna√ß√£o‚ÄĚ, Cap. IX - ‚ÄúObedi√™ncia e Resigna√ß√£o‚ÄĚ, Cap. XXVIII, ‚ÄúPreces Gerais‚ÄĚ, ‚ÄúOra√ß√£o Dominical‚ÄĚ item 3

[5] Jornal da USE Ribeir√£o Preto

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